Discurso proferido pelo Professor Julio Cesar Sampaio do Prado Leite na formatura da turma de Engenharia de Computação da PUC-Rio no dia 6 de Janeiro de 2001.

 

 

Senhor Representante do Reitor, Professor José Alberto dos Reis Parise, Decano do CTC,

Senhor Diretor do Departamento de Informática, Prof. Daniel Schwabe,

Senhores Professores Homenageados,

Senhores formandos da turma de 2000,

Senhoras e senhores,

 

Muito me honra ser o padrinho da turma do ano 2000. Fico muito contente de poder dirigir-lhes a palavra em momento tão importante em suas vidas. Vou falar em três tempos: no tempo do que é, no tempo do que foi e no tempo do que será.

Hoje, cada vez mais, como canta Lulu Santos: "nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia. Tudo passa, tudo passará"

Como bem ressaltou o Professor Fernando Henrique Cardoso em seu discurso na turma de 2000 do Instituto Rio Branco: "Dentro de muito poucos anos, vamos ter à nossa disposição uma tecnologia de comunicação e de informação em nível global, em que cada indivíduo, num aparelhinho pequeno, terá computador, Internet, fax, telefone, televisão, tudo. E vai se comunicar diretamente um com o outro, em qualquer parte do mundo. Vai dar ordens de compra a partir de Brasília, e comprar alguma coisa que seja no Japão para mandar para a Europa. E os controles sobre isso serão muito escassos. Esse é o nosso desafio. Um mundo em que, ao mesmo tempo existe essa possibilidade de uma integração até individual em termos globais, mas que, ao mesmo tempo, requer uma integração muito forte em termos regionais e requer uma presença do Estado, não mais como um instrumento para assegurar apenas o crescimento da economia, ou para assegurar os mecanismos de relacionamento entre indivíduos, mas basicamente para evitar que a exclusão social crie uma injustiça ainda maior no plano, não só local, mas no plano global."

Hoje, somos 166 milhões de brasileiros segundo estimativas do IBGE, mas em 1970 cantávamos: 90 milhões em ação

Hoje o Brasil forma 4 mil doutores por ano, e cerca de 88% das famílias brasileiras tem televisão.

No entanto ainda temos, em termos de nação, um grande problema, que é o da desigualdade social. A periferia das grandes cidades deixa claro que essa situação tem que mudar. Hoje essa desigualdade que sentimos localmente, também aflige outros povos, principalmente, e até em mais intensidade os povos da África.

Estima-se que o comércio eletrônico movimentou em 2000 cerca de 1,6 trilhões de dólares e que as taxas de crescimento são da ordem de 40% ao ano. A internet certamente, como disse nosso presidente tem uma grande papel na integração global, mas, como também lembrado por ele pode ser um grande divisor. Os excluídos do futuro serão aqueles sem acesso a rede, sem acesso ao conhecimento.

Hoje, vocês se formam numa instituição impar no sistema educacional brasileiro. A PUC-Rio não é uma universidade pública, mas segue um modelo de integração de ensino e pesquisa característico de organizações, que diferentemente dela, contam com forte apóio governamental. Além do privilégio de poder estudar em um campus dos mais agradáveis que eu conheço, sendo que eu já visitei inúmeras universidades em vários países, vocês tem o privilégio de terem se formado num ambiente onde não só se ensina os conhecimentos já disponíveis, mas se discute novos conhecimentos através da pesquisa científica.

Vocês se formam hoje em Engenharia da Computação e estão aptos, para competirem globalmente com formandos de qualquer outra universidade do mundo. Digo isso, porque parafraseando Ruy Barborsa: "Vi várias universidades do mundo e aprendi a me orgulhar da minha". Isso é um grande privilégio, mas também uma grande responsabilidade.

 

Sobre o que foi.

A engenharia de computação foi criada de uma forma inovadora para formar um novo engenheiro, aquele que teria forte embasamento em hardware como também em software, daí o programa ser um programa conjunto de dois departamentos da universidade (elétrica e informática) e contar também com os cursos fundamentais da engenharia. Certamente, foi o ciclo básico do CTC o maior desafio para muitos de vocês, mas esse embasamento que tiveram, faz e fará uma substancial diferença.

No entanto, face as mudanças globais, a nova ordem internacional e a abertura dos portos, o mercado para o engenheiro de hardware não se desenvolveu tanto quanto para o engenheiro de software. A nossa indústria de hardware não prosperou como devia e como estava planejado por aqueles brasileiros, que ainda na década de 70, fizeram um trabalho fantástico de proteção e criação de um mercado de informática, o que nos possibilitou, sem sombra de dúvida, estarmos no patamar atual, principalmente na formação de profissionais. A indústria de software no entanto conseguiu sobreviver a abertura desmedida ocorrida nos anos 90.

Em meados de 90 a PUC-Rio, face a nova ordem mundial, começou os esforços para suprir na formação de seus alunos do CTC, e em especial dos alunos de informática, conhecimentos empresariais. Hoje esse movimento encontra-se perfeitamente entrosado na carreira. Os alunos reconhecem o sucesso dessa iniciativa e aqui homenageiam os professores Aranha e Salim que tiveram participação fundamental nessa transformação.

 

Ainda sobre antes.

Cada família aqui presente é vitoriosa. Formar um filho hoje não é tarefa simples, certamente muitos foram os obstáculos, quer sejam de ordem pessoal ou de ordem financeira que tiveram que ser vencidos. Isso passou, mas certamente dá muito mais valor ao dia de hoje.

 

Sobre o tempo do que será.

Bill Gates (Aqui cabe um comentário, Bill Gates o homem mais rico do mundo usa em sua página na internet dois títulos: Microsoft Chairman and Chief Software Architect ) diz que os negócios vão mudar mais nos próximos 10 anos do que nos últimos 50. Ele nomeia a década de 80 como a década da qualidade, a de 90 como a da re-engenharia e a de 00 como a década da velocidade.

 

A tradução da lei de conservação das massas de Lavoisier para o famoso ditado: " na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma", não é direta. A lei de conservação das massas se aplica a sistemas fechados. No entanto a paráfrase para reuso é muito bem apropriada. O reuso de componentes e sua infinita possibilidade de composição é, no meu ponto de vista, uma das principais respostas a demanda crescente por novos produtos de software e para a evolução dos atuais. No entanto apesar da década demandar velocidade, só isso não é suficiente. Na friction-free economy se você não é mainstream, então o binômio qualidade/velocidade não poderá ser dissociado.

Muitos desafios pela frente, principalmente o fato de que, sendo a velocidade imperativa a letra da canção deve ser adaptada. "Tudo que se vê, não é igual ao que a gente viu a um milissegundo. Tudo muda o tempo todo no mundo".

Como, nesse turbilhão, manter-se atualizado, como manter-se íntegro e como melhor ajudar ao todo? Esses são desafios perenes. Estudar sempre. Não adianta saber só o telefone, tem que saber o que perguntar. Como também não basta usar uma máquina de busca, tem que saber criticar os resultados. Lembrar da universidade como uma catalisadora e geradora de conhecimentos e ter nela um referencial para si e para as gerações futuras. Se ricos ficarem, que bom, mas nessa hora, usem a melhor solidariedade do sistema americano, lembrem de doar a sua universidade; isso certamente ajudará a outros no futuro (Aqui cabe outro comentário: Bill Gates doou o prédio de Ciência da Computação da Universidade de Stanford e o Dr. Henry Samueli fundador da Broadcom fez uma doação de 50 milhões de dolares para a escolas de engenharia da Universidade da Califórnia, IrvineI e da Universidade da Califórnia Los Angeles.).

Nesse ponto gostaríamos de apontar o que o Prof. Milton Santos fala sobre velocidade: "Pode-se dizer que a velocidade assim utilizada é duplamente um dado da política e não da técnica. De fato o uso extremo da velocidade acaba por ser o imperativo das empresas hegemônicas e não das demais, para as quais o sentido da urgência não é uma constante. Todavia, a velocidade atual e tudo que vem com ela, e que dela decorre, não é inelutável nem imprescindível. Na verdade, ela não beneficia nem interessa à maioria da humanidade. Para quê, de fato, serve esse relógio despótico do mundo atual?"

O mercado de trabalho vai mudar. O tempo das garantias trabalhistas vem sofrendo grande ataque pelo sistema neo-liberal. Novas alternativas terão que surgir. A pressão e angústia do homem moderno, principalmente daquele que trabalha para viver, mesmo sendo ele um trabalhador do conhecimento, vai persistir. A retórica da velocidade, exige excelência, não basta ser bom. Pode ser desumano, mas o futuro próximo não será muito diferente. Temos que saber dizer não, e certamente vocês como futuros arquitetos de máquinas de software serão muito responsáveis pelo aumento da velocidade. Sempre que acharem próprio, pisem no freio.

 

No entanto, o grande desafio de vocês é contribuir para as novas gerações. Romper o desequilíbrio social. Aumentar o conhecimento dos excluídos. Integrar a sociedade de maneira solidária. Usem seus conhecimentos para prover ou aplicar tecnologias de computação que melhorem a vida de todos. Sonhar é sempre bom. Como dizia Martin Luther King, "I have a dream".

Genau. Fenomeno. Amazing. Sem tecas. Não é mole, mas certamente é tudo muito divertido.

Sejam felizes!

Muito obrigado.